Transcript

Ben<\/span>: Estamos de volta a "The Story of Languages" da Vocafy. Eu sou o Ben e estou aqui outra vez com a Clara. Depois da nossa viagem pela vasta paisagem linguística de África, vamos focar-nos numa única língua que se estende por dois continentes e é falada por mais de 400 milhões de pessoas: o árabe. Mas, Clara, a primeira coisa que se aprende sobre o árabe é que "uma única língua" é uma expressão muito enganadora.<\/p>\r\n\r\n

Clara<\/span>: Olá, Ben. Esse é o ponto de partida perfeito. É o paradoxo central do árabe. Por um lado, é uma língua unificada, com um alfabeto e uma herança comuns. Por outro, uma pessoa do Marrocos e outra do Iraque podem ter dificuldade em manter uma conversa informal. Isto acontece porque o mundo de língua árabe vive num estado a que os linguistas chamam "diglossia".<\/p>\r\n\r\n

Ben<\/span>: Diglossia. Parece técnico. O que significa em termos simples?<\/p>\r\n\r\n

Clara<\/span>: Pensa nisto como ter duas versões diferentes da língua, usadas em ocasiões diferentes. Há uma versão formal, "de cerimónia", e depois a versão informal do dia a dia, aquela que se fala em casa. No árabe, esta divisão é muito mais acentuada do que na maioria das outras línguas.<\/p>\r\n\r\n

Ben<\/span>: Então vamos separar estas duas versões. Qual é a formal?<\/p>\r\n\r\n

Clara<\/span>: Esse é o Árabe Padrão Moderno, ou MSA. É o descendente direto do árabe clássico do Corão. Esta é a língua da unidade. É a que se lê em livros e jornais, a que se ouve em aulas universitárias e — o mais importante — é a língua dos noticiários. Se ligares a Al Jazeera ou qualquer outro grande canal pan-árabe de notícias, os apresentadores falam MSA. Isso garante que um discurso político ou uma reportagem sejam compreendidos de Rabat a Riade.<\/p>\r\n\r\n

Ben<\/span>: Então toda a gente o compreende. Mas as pessoas falam mesmo assim? Por exemplo, com amigos ou família?<\/p>\r\n\r\n

Clara<\/span>: Quase nunca. E este é o ponto essencial: o MSA não é língua materna de ninguém. Toda a gente o aprende na escola, mas ninguém o usa para regatear no mercado ou conversar com um taxista. Para isso, usa-se a segunda versão: os dialetos.<\/p>\r\n\r\n

Ben<\/span>: Os dialetos. Portanto, essa é a língua informal do dia a dia. Até que ponto diferem uns dos outros?<\/p>\r\n\r\n

Clara<\/span>: De forma drástica. Este é o coração vivo e vibrante do árabe, conhecido como `Ammiyya. Cada região tem o seu. Os dialetos de países vizinhos, como o Líbano e a Síria, costumam ser mutuamente inteligíveis. Mas, à medida que a distância aumenta, também aumenta a diferença linguística. Os dialetos do Norte de África, chamados magrebinos ou darija, recebem forte influência das línguas berberes e do francês, o que os torna especialmente difíceis de entender para árabes do Médio Oriente.<\/p>\r\n\r\n

Ben<\/span>: Então, se são assim tão diferentes, como é que existe uma cultura partilhada tão vasta — como o cinema e a música? Como é que uma canção de sucesso de um país passa a ser popular noutro?<\/p>\r\n\r\n

Clara<\/span>: Essa é uma excelente pergunta, e a resposta está na grande potência cultural do mundo árabe: o Egito. Durante décadas, o Egito foi o "Hollywood do Médio Oriente", com um enorme volume de filmes, séries de televisão e canções. Por causa disso, o árabe egípcio passou a ser o dialeto mais amplamente compreendido em toda a região. Mesmo que uma pessoa da Arábia Saudita e outra da Tunísia não entendam o dialeto nativo uma da outra, muitas vezes encontram um ponto comum ao passar para um árabe egípcio simplificado que ambas conhecem dos filmes.<\/p>\r\n\r\n

Ben<\/span>: Portanto, o cinema egípcio criou uma espécie de língua franca não oficial. Fascinante. E para quem aprende a língua? Quais são algumas das características únicas com que é preciso lidar, quer se aprenda MSA quer um dialeto?<\/p>\r\n\r\n

Clara<\/span>: A primeira é o alfabeto. Escreve-se da direita para a esquerda, o que obriga a uma inversão mental curiosa. Mas a característica mais bela e poderosa é o sistema de raízes. A maioria das palavras constrói-se a partir de uma raiz de três consoantes. Por exemplo, a raiz K-T-B está relacionada com a ideia de 'escrever'. Desta única raiz surgem kitab (livro), katib (escritor), maktab (escritório) e maktaba (biblioteca). Quando aprendes a raiz, consegues abrir toda uma família de palavras.<\/p>\r\n\r\n

Ben<\/span>: É como um código secreto do vocabulário. E quanto aos sons? Já ouvi dizer que o árabe tem sons que não existem em inglês.<\/p>\r\n\r\n

Clara<\/span>: Tem, sem dúvida. Há vários sons profundos, guturais, como o famoso ayn (ع), que se formam na parte de trás da garganta. Dominá-los é um verdadeiro desafio para quem aprende, mas é essencial para soar de forma autêntica.<\/p>\r\n\r\n

Ben<\/span>: E isso leva-nos à pergunta decisiva para qualquer pessoa que queira aprender: por onde se começa? MSA ou um dialeto específico?<\/p>\r\n\r\n

Clara<\/span>: Depende totalmente dos teus objetivos. Se queres ler literatura, compreender as notícias e ter uma base sólida para todo o mundo árabe, começas pelo MSA. Dá-te a "chave-mestra". Mas, se o teu objetivo é viajar para a Jordânia no próximo ano e fazer amizades, deves aprender o dialeto levantino local. Vais comunicar muito mais depressa em situações do dia a dia.<\/p>\r\n\r\n

Ben<\/span>: Há um meio-termo?<\/p>\r\n\r\n

Clara<\/span>: Claro. O conselho mais comum é começar pelos fundamentos do MSA para compreender o alfabeto e a gramática e, depois, passar para um dialeto amplamente compreendido, como o egípcio ou o levantino, para praticar a fala e a compreensão oral. Assim, ficas com o melhor dos dois mundos.<\/p>\r\n\r\n

Ben<\/span>: Portanto, o árabe não é uma única língua, mas todo um universo linguístico, unido por uma norma formal e escrita, mas vivo graças a centenas de variações locais.<\/p>\r\n\r\n

Clara<\/span>: Exatamente. Aprender árabe, em qualquer das suas formas, é um convite para entrar numa das culturas mais ricas e historicamente mais importantes do mundo. Não estás apenas a aprender uma língua; estás a ganhar acesso a todas.<\/p>\r\n\r\n

Ben<\/span>: Que forma poderosa de o dizer. Portanto, a chave não está em deixar-se intimidar pela complexidade, mas em vê-la como uma porta de entrada para toda uma civilização. Clara, muito obrigado por nos ajudares a desmistificar este incrível mundo linguístico.<\/p>\r\n\r\n

Clara<\/span>: Foi um prazer, Ben. Sempre que quiseres.<\/p>\r\n